Mulheres e Movimentos 
 
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No mínimo: Carla Rodrigues - 11/04/2005

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    Mulheres em movimento de libertação
    Na abertura de “Mulheres e movimentos” (Aeroplano Editora, R$ 85, 208 págs.) a fotógrafa Claudia Ferreira explica que a história do livro começa, quando ela fotografou o 8ª. Encontro Nacional Feminista, ocorrido em 1989 em Bertioga, SP. Embora sua câmera só ali tenha começado a captar imagens de mulheres em movimento, a história do livro de Claudia Ferreira e Claudia Bonan, socióloga que assina os textos, começa em 1975. Pela primeira vez a ONU tinha instituído o Ano Internacional da Mulher e declarado a década seguinte, até 1985, como dedicada a mulher no mundo inteiro. A feminista Betty Fridman já tinha andado pelo Rio de Janeiro, a convite da escritora Rose Marie Muraro, no início dos anos 70. Os ventos sopravam a favor da emancipação feminina desde a descoberta da pílula anticoncepcional, em 1960, e do ressurgimento do movimento feminista nos EUA.

    No Brasil, foi em plena ditadura militar que um grupo de mulheres realizou, no auditório da ABI, no Rio de Janeiro, a semana de debates chamada “O papel e o comportamento da mulher na realidade brasileira”, encontro que deu origem ao Centro da Mulher Brasileira. Foi neste mesmo ano que criou-se o Movimento Feminino pela Anistia. Os exilados voltaram, a redemocratização começou a dar seus primeiros passos. Nos estados, foram surgindo conselhos estaduais de direitos da mulher e em Brasília a socióloga Jacqueline Pitanguy presidiu o pioneiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Assim, quando as lentes de Claudia Ferreira apontaram para o encontro de Bertioga, a nova onda do feminismo no Brasil já vinha de longe.

    Mas o trabalho de Claudia pega um momento especial: na Assembléia Nacional Constituinte, em 1988, as feministas fizeram o que ficou conhecido como “lobby do batom”, intensa mobilização por novos direitos para as mulheres. Em 1989, em Bertioga, o movimento já tinha testado e comprovado importância e poder, que se consolidaria ao longo da década de 90. Não por acaso o livro das duas Claudias dedica um capítulo inteiro à participação das mulheres no ciclo de conferências mundiais da ONU. No Rio de Janeiro, o Planeta Fêmea ocupou o Aterro do Flamengo durante a Eco-92. As conferências do Cairo (94, sem registro no livro) Beijing (95) e Durban (2001), que discutiu racismo na África do Sul, foram importantes momentos de encontro, fortalecimento e globalização da bandeira feminista.

    É certamente neste aspecto global que o livro de Claudia tem enorme contribuição a dar: são eloqüentes as imagens de mulheres do mundo inteiro carregando as mesmas bandeiras. As conferência de Beijing, que reuniu quase 500 mulheres brasileiras, e de Durban, na qual as mulheres negras tiveram papel de destaque, ganharam representação especial no livro. O melhor da iniciativa de reunir a história desses últimos 15 anos em que Claudia militou, através da fotografia, no movimento feminista, é a possibilidade de mostrar a importância do papel das mulheres no processo de democratização do país. Se hoje é considerado natural que as mulheres estudem, trabalhem e sejam donas das suas próprias vidas, princípios que estão presentes mesmo em famílias conservadoras, é por que o feminismo produziu, ao longo dos últimos 30 anos, uma revolução silenciosa e pacífica, capaz de mudar o padrão de comportamento de homens e mulheres nas sociedades ocidentais. Conceder este mérito ao feminismo é a única maneira de garantir que novas conquistas sejam realizadas. Esse certamente é um dos desafios que as feministas ainda enfrentam – mostrar que o movimento tem sido um instrumento para melhorar a sociedade como um todo, e não apenas uma forma de fazer justiça às mulheres.

    As resistências a essa visão são muitas: mesmo hoje, passados os preconceitos iniciais, ainda é comum ouvir dos homens criticas por revanchismo ou disputa de poder. Também é freqüente a queixa conservadora que enxerga na liberdade das mulheres uma ameaça aos homens. A idéia - totalmente retrógrada, aliás - é de que a emancipação feminina empurrou os homens para um caos que não lhes pertence, no qual eles só estão enfiados por “culpa” das mulheres. É um argumento ruim para os próprios homens, já que os coloca “a reboque” das mulheres. Além de desqualificar a mudança masculina, o argumento inclui uma crítica ao movimento de emancipação feminina.

    Mesmo nos movimentos homossexuais, que tiveram sua origem na reivindicação das mulheres pela dissociação entre sexo e reprodução, as qualidades feministas não são completamente aceitas. O começo do fim do modelo patriarcal marca forja indivíduos mais livres. Nesse sentido, não há dúvida de que “Mulheres e movimentos” ajuda a mostrar, em imagens, o que diz com muita graça a humorista argentina Maitena: “Se não fosse o feminismo, nós ainda estaríamos em casa passando roupa.”


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